Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

As emboscadas continuam…

Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Recordam-se dos “Escutas”?

Eu não me recordo e não sei se alguma vez os vi nas minhas poucas idas ao Batasano, mas a malta da CCS e da 1ª Cª, de certeza que se lembram deles.

José Gonçalves, “Escuta” ou SRT/CHERET, visitou o nosso blogue, e além de deixar algumas mensagens no Livro de Visitas, também enviou “material” para publicação, eis um dos seus textos:

«Chegámos ao BC 4910 – Batasano, em Agosto de 1973, para onde fomos transferidos do Belize (B Cavalaria) – eu, o Canas, o Mira e um furriel cujo nome não recordo - por sugestão do 2º Comandante, Major Rebelo Marques, que tinha sido nosso chefe no QG em Luanda e, dado que o Batasano ficava em altitude superior, as condições de recepção aí seriam melhores para o desempenho do nosso trabalho que consistia na pesquisa e escuta/gravação, em várias frequências, das transmissões do IN em código morse.

O nosso trabalho cobria todo o território angolano, mas com maior incidência sobre a parte Norte. Havia já frequências que eram do nosso conhecimento e, como tal, através da escuta conseguíamos seguir as movimentações dos grupos, – à época chamados de “turras” – evitar emboscadas e, ao contrário, sermos nós a montá-las.Éramos os chamados “aramistas”.


Do nosso trabalho só dávamos conhecimento ao 2º Comandante (que estava mandatado por Luanda), o restante pessoal sabia mais ou menos o que fazíamos, mas não em pormenor.»
José Gonçalves

Foto de cima: Festa de aniversário do Lé (enfermeiro). Um prato de nozes e pevides e quantidade adequada de “Nocal”. Eu (José Gonçalves) estou de pé encostado ao pilar de apoio da cobertura e do meu lado esquerdo está o aniversariante e outro camarada enfermeiro.

Foto de baixo: Na mesma festa de aniversário. Chamo a atenção para o “tocador” de “Nocal” que era, também, o corneteiro do Batalhão. Digam lá se ele não tem jeito… o Canas com havaianas calçadas, não tinha medo da “matacanha”.
José Gonçalves

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Menos Um....






Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Sábado, 20 de Dezembro de 2008

Um Natal no Sangamongo

Na minha memória já não há quase nada desse Natal. Foi em 1973, como o tempo passa, já lá vão 35 anos e só as fotos me fazem recordar alguns pormenores.

Na primeira foto trata-se do jantar da noite de Natal no refeitório com toda a companhia. Não sei ao certo o que foi o jantar, mas quase de certeza que o Sousa (vagomestre) nos deu bacalhau, pelo menos vê-se um galheteiro na mesa.

Segundo os “books” e os entendidos da guerra, era na quadra natalícia que mais ataques havia, e como homem prevenido vale por dois, é visível que toda a malta está à mesa de cartucheiras e de G3.

...........................Virgílio Santos, Tavares, João Silva, Fernandes e João Maria.

A segunda foto é da ceia, também na noite de Natal, mas em privado, apenas para os seis residentes da “barraquinha da miséria”, nome carinhoso, que dávamos ao local onde dormíamos.

Sem dúvida uma mesa bem composta e com muito requinte, se tivermos em conta, o local tão ermo, como era o Sangamongo. O prato principal - Peru com batatinha assada no forno -, muito bem regado com verdes, brancos e tintos, naquela altura ninguém era esquisito.

Só um aparte… esse tal peru foi encomendado em Cabinda, salvo erro com dois meses de antecedência, e custou-nos uma pequena fortuna.

E eu que até nem aprecio aves, nada como um bom bacalhau!

Virgílio Santos, Lopes, João Maria, João Silva, Fernandes e Tavares.

Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

Um cartaz contestatário dentro de minha casa... no Buko Zau



Meus amigos, diz-se habitualmente que uma imagem vale por mil palavras e que uma imagem em movimento vale por duas mil (vejam a televisão) - e, já agora: saibam que entre a malta nas redacções, quando se atira um agrafador ou similar a um tipo que está a chatear, diz-se logo: e uma pedrada a três dimensões vale por um milhão (de palavras)...
Deixo-lhes aí umas coisas do Buko Zau, sob a forma de imagens de grande profundidade emocional para mim, cedidas por gentileza do Dr. Nuno Miguel: o Rio Luáli, um cartaz, a minha casa.
Um dia destes publicamos mais umas fotos de lá.
Aquele 'poster' da escola, que copiei, na altura, de uma revista francesa ('Nouvel Observateur', talvez, sei lá hoje de onde foi... esse cartaz tem uma legenda: «A escola para fazer o quê?». Estávamos numa época de grande constestação da escola, de onde as pessoas saíam todas iguaizinhas umas às outras, contestação essa que nos chegava sobretudo da França que tinha feito o... Maio de 68... (não se esqueçam: estamos em 72/73...).
Pois bem: eu, que não tenho jeito nenhum para desenho, como se vê na gravura, desenhei aquilo em cartolina e o cartazete esteve durante mais de um ano afixado numa parede lá de casa (na outra foto, a casa da esquerda, a mais próxima do Rio Luáli, era a minha - cá em baixo, no Buko Zau).
Um dia, entra o 1º comandante (CJ Delgado) pela casa dentro, pedindo licença, claro, e pediu para ver a casa. Olhou, mirou tudo, fartou-se de fixar o cartaz (julgo que não saberia francês e que, mesmo sabendo, não teria nunca percebido a ironia escola-fábrica...) e notou-se que, mesmo achando que os milicianos não regulavam da cabeça, ficou agradado com o que viu. Ou com quase tudo, vá lá. E, sobretudo, sublinho que nem uma palavra menos própria sobre nada do que lá viu, incluindo o cartazete...

Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

Recordando o 13º Encontro – 2004 Viseu

Este encontro coincidiu com o 30º Aniversário da nossa chegada, e realizou-se no dia 2 de Outubro de 2004, no Restaurante Quinta dos Compadres, Abraveses – Viseu. Estiveram presentes entre 160 e 170 pessoas (sendo cerca de 80 ex-militares).

A organização esteve a cargo dos companheiros da 3ª Companhia, Pereira e Pinto Marques, e nada a apontar, foi excelente. E por essa razão, ouvi o Óscar Maia, dizer: -Equipa que ganha, não se mexe! E vai daí… ficou a mesma equipa mobilizada para o ano seguinte.

O Batalhão (clicar na foto para zoom)

2ª Companhia - Não me chamem racista! É que só tenho a foto da minha companhia. (clicar na foto para zoom)

Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

NOTÍCIAS DE BUCO ZAU

Foi inaugurado no passado dia 11, terça feira, no âmbito das comemorações do 33º aniversário da independência de Angola, o Estádio Municipal de Buco Zau.
Construído pela empresa italiana Mondo, especializada em instalações e equipamentos desportivos, o Estádio Municipal orçou em 8 milhões de dólares, dispõe de uma bancada com capacidade para 2300 espectadoores e está dotado de um campo de jogo em relva sintética com as dimensões de 105x68 e de uma pista de tartan para a prática de atletismo.
Esta infraestrura desportiva para além de passar a ser utilizada pelos dois clubes do município que participam em competições oficiais, o Esperanças de Buco Zau e o Limba Sport, servirá também de apoio às equipas que participarão no CAN 2010 organizado por Angola e que terá um grupo de 4 equipas sedeado em Cabinda.
Na inauguração do estádio que adoptou o nome de "Mbuco Mabela", disputou-se um jogo de futebol entre um misto de Cabinda e uma equipa do Baixo Congo, que os "Cabindas" venceram por 2-0.
No discurso de inauguração o governador provincial, Aníbal Rocha, anunciou para breve a construção, ao lado do estádio, de uma unidade hoteleira com capacidade para 60 hóspedes e cuja obra já está adjudicada.
Entretanto decorrem em bom ritmo e já em fase de acabamento as obras de construção da nova Igreja Católica e do Hospital "Alzira da Fonseca".

Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Duas batatas e umas azeitonas em Lamego às 5 da manhã


Esta foto, que retirei do 'site' «Olhares», é da autoria de José Lopes. Sobre ela, alguém comentou que lhe faz lembrar Penude, Lalim e Lazarim e os tempos horríveis que passou nos Rangers. A mim também. Conheço muito bem estas encostas, que repetidamente cheirei, a rastejar...

O que sofri em Cabinda, meus amigos, apesar de tudo e da iminência da morte, nem por sombras me fez sofrer tanto ou sentir fisicamente tão mal como quando sofri o que me fizeram em Lamego. Tortura física. Tortura psicológica em último grau.
Cabinda foi mau. Muito mau. Lamego foi péssimo. Muito péssimo.
Nem que viva 300 anos - e é mais ou menos isso que devo durar depois de Mafra, Lamego e Cabinda! - nunca poderei esquecer o que me fizeram naquelas onze semanas de Penude.
Fui para Lamego fazer o segundo ciclo de instrução, depois de Mafra e um dia em Santarém - como já disse. Mandaram-me para Operações Especiais.
Naquela altura, havia uma espécie de praxe para quem chegava. Na primeira noite, ataram-nos dois a dois e meteram-nos em Unimogs tapados com lona. Chamavam a esta operação a Largada (em Lamego são 11 as operações e cada uma é maior e mais perigosa e dura do que a anterior - e todas têm nomes sugestivos...).
Levaram-nos para distâncias de muitos quilómetros. Deixaram-nos abandonados aos pares, atados, longe uns dos outros lá no meio das serranias, muito longe de Lamego. Nada de comida. Apenas o cantil da água. Havia um aviso: tínhamos de nos desenrascar, desatarmo-nos e estar às sete da matina para o pequeno almoço no quartel, em Penude, uma serrazita a 4 km de Lamego. Era obrigatório chegar juntos ao quartel. Ah, e um alerta muito sério, tipo ameaça: proibido pedir comida, proibido apanhar boleias. Se fôssemos apanhados em falta, não íamos de fim-de-semana durante um mês ou coisa no género.
Lá ficámos, eu e o meu parceiro.
Depois de meia hora, tínhamos conseguido desatar aquela coisa.
Começámos a andar a pé pela serra, em direcção à luz (era meia-noite ou coisa que o valha).
Fartei-me de andar. Claro que me doíam os pés. Claro que amaldiçoei a tropa toda.
Mas lá continuámos.
Aí pelas cinco, finalmente uma casita paupérrima, uma quintazita. Batemos. Vem uma senhora de idade (ou pareceu-nos: aos 20 anos, tudo o que tenha mais de 40 é cota, bem o sabemos).
Pedimos comida. A senhora desculpou-se. Não tinha nada. Só se quiséssemos umas batatas cozidas e umas azeitonas. Sim, claro, fosse o que fosse.
Meus amigos! Que boas que são as batatas cozidas. E se houver azeitonas pretas como aquelas, então são mesmo um acepipe. Experimentem estar nove horas sem comer nada e depois comam duas batatas com azeitonas pretas...
Ainda hoje me lembro do exacto sabor do pequeno almoço dessa matina.
..
Ao longo de toda a vida, quando vejo batatas cozidas, não resisto e peço umas azeitonas, de preferência pretas... e como-as assim mesmo: sem molho, sem azeites, sem nada: só as batatinhas e as azeitonas pretas. Ui!...

Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

QUASE DESERTOR

Doze de Agosto de mil novecentos e setenta e dois, dia de embarque da 1ª companhia.
À hora da formatura na parada do RI da Amadora ainda eu estava na rua, bem próximo da porta de armas.
É necessário recuar um pouco no tempo para compreender melhor esta história.
Ao saber da minha mobilização, logo decidi que na hora da partida não me despediria da família. Não sei explicar o porquê de tal decisão, mas o certo é que ela foi tomada e assumida como irreversível.
O tempo foi passando até que houve a última licença de fim de semana antes do embarque. Depois disso era a semana final até à partida para Luanda.
Semana difícil e complicada emocionalmente, até que na quinta feira não resisti e "desenfiei-me".
Sem receio de qualquer castigo (afinal que castigo mais poderiam dar-me?), vim para casa, para uns dias de convívio familiar que afinal até poderiam ser os últimos.
Não quis ninguém na partida, como depois também não quis ninguém na chegada, mas partir para o desconhecido, com dúvidas quanto ao regresso, era de mais para fazê-lo sem me despedir e caiu por terra a minha decisão anterior.
Foi assim que protagonizei o meu segundo (apenas) "desenfianço", nestes quase sete meses de serviço militar.
Chegou o sábado dia doze e fez-se hora de regressar à Amadora, só que no momento de transpôr a porta de armas houve uma forte hesitação e ainda por ali deambulei tipo vou...não vou, durante largos minutos.
Conhecia alguém que tinha desertado e que após cinco longos anos escondido teve que se entregar porque não aguentou a pressão (agora diz-se stress) de viver constantemente fugindo de tudo e de todos.
Pensei que também isso me poderia acontecer e apesar de ter boas indicações de que o regime poderia cair a qualquer momento, não havia uma garantia absoluta de que assim acontecesse.
Decidi avançar! Na parada já se iniciara a formatura para preparar a viagem até ao aeroporto militar de Figo Maduro e um colega que sabia da minha ausência já entregara a roupa da cama para me facilitar a vida.
Por momentos fui desertor, pelo menos em pensamento.
Nem equaciono hoje qual teria sido a decisão mais correcta porque a vida não se faz de "ses".
Tomei a que tomei e foi essa, obviamente, que prevaleceu!
Que mais não seja, valeu a pena porque vos tenho agora a todos como amigos!
................................................................................................................................................
Este é um "post" de índole pessoal por ser referente à data de embarque mas futuramente tentarei evitar o discurso na primeira pessoa centrando-o mais no colectivo ou na informação.

Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Creio que foi próximo do Pangamongo que vi

... Nem sabia que era possível seres humanos comerem macacos. Naqueles dias eu era tão jovem e formatado para outras coisas, que nem concebia essa possibilidade. Pois se os macacos são tão parecidos connosco. Comê-los parecia uma aberração. Percebi depois, muito depois, que a Natureza não se pauta por preconceitos. E que as leis da Natureza, por mais cruéis e «desumanas» que pareçam, são muito acertadas. Tudo se harmoniza.
.
Penso que foi lá pelos lados do Pangamongo que um dia vi. Tenho isso como certo: eu vi. Mas já não recordo mais do que umas imagens esbatidas de uns tachos, creio que de barro, um lume igual a todos os outros naquelas sanzalas, uma parede de adobe junto da qual o «banquete» estava a ser preparado... e os bocados de carne, as pernitas e tal - eram os macacos a ser preparados para servirem de alimentação.
.
Recordo com nitidez, isso sim, que alguém me disse que o pessoal de lá considerava a coisa muito saborosa. E foi-nos garantido que não era de chimpanzé. E menos ainda de gorila. Que nesses ninguém tocava. Pudera! Esses são iguaizinhos a nós - passe o excesso de linguagem.
.
Nota: A ideia que tenho é que o pêlo dos pequenos macacos de Cabinda/Maiombe era mais escuro do que o destes da foto. Era mesmo castanho muito escuro, quase preto.

Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

Era uma pena matá-las. Mas tinha de ser, por causa das leis da Natureza: a malta tinha de se alimentar e diversificar...

Lembram-se deste bicho aqui pintado? (Não é foto: é pintura). Pois bem, a gazela é da família do antílope. E havia lá bastantes. Tantas, que de vez em quando davam para uma refeição. Havia quem fosse à caça delas, mas de (imaginem)... de G3.
No Natal de 73, depois de ter ficado uns dias abandonado ao pé de um rio sem viaturas - a Berliet blindada, aquele monstro, tinha derrapado e enfiou com os Unimogs todos no rio (erro técnico meu: nunca os Unimogs deviam ter ficado atrás da Berliet naquela subida íngreme). Isto passou-se a uns quilómetros do PenKacta.
Mais tarde o Maia (engenheiro mecânico e grande amigão) foi-me buscar, rebocando tudo. Vínhamos com uma fome de cão.
Pois bem: no Quartel a malta já estava numa de jantar de véspera de Natal - e o acepipe era o quê? Gazela guisada. Soube bem com' ò caraças, meus amigos...

Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Os bichinhos que nos lixavam a vida


Naquele mundo que era uma espécie de National Geographic ao vivo, como já escrevi duas vezes e não me canso de pensar, havia um certo tipo de bicharadazinha de pequena dimensão, uns seres pequeninos que eram particularmente «chatos»:
* antes de mais, os mosquitos cuja picada dava origem ao paludismo. O Dr. Miguel, o Curto e outros podem falar disso melhor do que eu. Mas eu tive paludismo. Sei o que isso dava de desgaste e de desânimo;
* depois, as baratas: aos milhões - por todo o lado onde houvesse víveres;
* e ainda as formigas. Muitas. Em filas compactas que davam a volta às casas e só havia uma forma de evitar que entrassem e roessem tudo: rodear a casa de... sal, imaginem;
* mas não só: as osgas frias, moles, langanhosas, que se encostavam descaradamente à perna do pessoal quando se estava a dormir a sesta na tarde quente de inferno... mesmo com a ventoinha apontada à pele... quando davas por ela e lhe mexias, que sensação horrível.
Tudo isto, escrito agora, 34 ou 35 anos depois, parece incrivelmente angustiante. Mas hoje olho para trás e recordo aquela bicharada com muita ternura (não por eles, os bichinhos, claro, que não os conheço de lado nenhum, mas por causa do asco que naqueles meus vinte e poucos anos eu achava que era o pior que havia no mundo... e afinal tinha tanta coisa pior para ver e sofrer... e os bichinhos até sem culpa nenhuma: nós é que nos fomos intrometer - melhor, «fomos intrometidos» - lá no seu «habitat» natural).

Domingo, 2 de Novembro de 2008

Xikuala

Sabem uma coisa? Não há dia nenhum em que não me lembre de histórias daqueles dias de Cabinda. E muitas vezes escrevo uma ou outra história aqui ou ali sobre coisas e pessoas. Em 2006, foi esta história do velho guia que sempre nos guiou por bons caminhos (ou seja: para bem longe do MPLA), pelos fiotes espalhados por aquela Maiombe, enquanto mascava xikuala que, ao que nós sabíamos era nem mais nem menos do que um excitante sexual. Para ele, era apenas pastilha elástica que lhe dava alguma energia suplementar.
Notas
1. Para a leres, basta cilcares em cima desse link que aí fica em «foi esta história do velho guia».
2. Chamo a tua atenção para as palavras esbatidas na imagem: eles escrevem «Chichualy», mas o nosso guia, quando um dia lhe perguntei o que é que ele mascava, respondeu bem claro e perceptível: «Xikuala». Admito outras grafias, claro - eles não conheciam a escrita - mas o som era esse: «xicuala». O «k» apenas o uso para reforçar o gutural dele: c seria muito fraco. Agora o que garanto é que não ouvi «chichualy» da boca dele... Enfim, isso é pouco importante. Até porque na zona falam-se diversos «dialectos» da língua-mãe, o kikong... Pode até ser que me Buco Zau se diga «xikuala»/«chikuala» e noutra zona «chichualy»

Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Recordando o 2º Encontro – 1994 Alcobaça

Pelas minhas contas, dos dezanove encontros realizados, falhei a três, e este foi o primeiro, passo contar...

No dia 1 de Outubro de 1994, passados dez anos do encontro no Carregado, o meu telefone tocou por volta das 11 horas, para minha surpresa era o Peres (ex-furriel da CCS), e ele porquê? Porque durante algum tempo, trabalhou na Propaganda Médica e viveu aqui na Figueira da Foz, e por isso contactava-mos com alguma frequência.
Voltando ao telefonema… ele perguntou-me se eu ia a Alcobaça. Alguém o tinha avisado no dia anterior, mas eu estava a saber duas ou três horas antes, e já com compromissos para esse dia.
Não fui, e fiquei sentido com umas certas pessoas, que não fizeram o que eu lhes fiz quando do 1º Encontro. Bem, já lhes perdoei!

Do encontro no Restaurante Sol e Vento, organizado pelos companheiros Madaíl e Américo Silva, o que sei é de algumas histórias que ouvi, sendo a mais badalada e que me foi confirmada pelo Madaíl, aquela em que na véspera do evento ele tinha umas noventa inscrições e no dia apareceram cerca de duzentas pessoas. O que foi excelente! Acabou por ser um almoço por turnos, como podem comprovar as fotos cedidas pelo Madaíl.


O bolo que não provei... e a organização a tirar medidas.

Domingo, 26 de Outubro de 2008

O segredo da vivência humana. Mas a amizade une também algumas outras espécies

Coloco aqui esta foto por causa de uma verdade científica: a amizade dos golfinhos uns pelos outros. Que diabo! E nós, os humanos???

Meus amigos, deve haver um segredo nisto tudo. Eu explico. Durante estes anos todos, por absoluta entrega à minha profissão - que é desumanamente absorvente -, nenhum de vocês se impôs ao meu pensamento. Quero dizer: nenhum de vocês em especial.
O que se me impõe em cada dia, desde aqueles dias, são as paisagens, algumas pessoas que comigo privaram mais por razões objectivas: a proximidade, o dia-a-dia, o Bata Sano, Buco Zau/bairro onde morava, aqueles que, como eu, lá tinham a família, algumas pessoas do meu «grupo de combate»... pouco mais.
Pela negativa, sou franco, impuseram-se-me sempre os comandantes, por razões óbvias, porque eles simbolizavam o que de pior me tinha acontecido na vida, e, do resto da tropa, um ou outro sacana reconhecidamente sacana para os soldados - e pouco mais.
Mas, tenho de confessar: o universo da malta, sim, esse sempre mexeu comigo, mas cada pessoa de per si, isso não: vocês eram uma nebulosa.
Mas agora começa a não ser assim.
Retomei a afectividade.
34 anos depois, meu!
E estava a saber-me tão bem.
De repente, bum!
Uma chatice a toldar a coisa.
Vamos ver se isto tem remédio.
Acho que sim: aqueles dias marcaram-nos, mas todos somos inteligentes. A prova é que estamos aqui vivos. Outros não estão. E isso é que é o essencial: nós estamos por aqui.
Gostaria de levar-vos comigo para onde vou: para o meu dia-a-dia de hoje, que é muito bonito, muito pró-activo, muito criativo e muito proveitoso para terceiros. Um dia conto umas coisas e verão que é giro.
Mas, para tanto, têm que me dar oportunidade, meus caros amigos...

Sábado, 25 de Outubro de 2008

Um dia em Santarém e foi o inferno

A foto da esquerda é muito famosa.
É a EPC em Lisboa no dia 25 de Abril
Fotógrafo: Alfredo Cunha

É verdade que Santarém e a sua Escola Prática de Cavalaria (EPC) desempenharam um papel central no 25 de Abril e ninguém pode esquecer isso: Salgueiro Maia e tal.
Mas, meus amigos! Eu passei apenas um dia naquela Casa e achei um horror.
Conto em meia dúzia de linhas.
Em 21 de Julho de 1971, em vez de me deixarem fazer oral de Economia Política na Faculdade de Direito de Lisboa, obrigaram-me a entrar pela arreata na tropa. Foram umas semanas horríveis, aquelas.
Acabado o 1º ciclo da Instrução (Mafra), um dia à noite mandam-nos embora e a mim dão-me um papel (chamam-lhe guia de marcha): dois dias depois tinha de me apresentar na EPC / Santarém.
Nada a dizer. Não sabia o que me esperava. E, honestamente, nem me interessava: do meu ponto de vista, na tropa tudo seria péssimo. Que mais dava?
Mas quando lá cheguei é que foram elas... Enfiaram-me com uma porrada de material para andar sempre às costas. E aquele danado daquele capacete! Quilos a apertarem-me a cabeça. Passa uma hora - eu tinha enxaquecas e tensão baixa na altura, vejam bem... - e não posso tirar o capacete.
Passam duas, três, cinco horas, vem o almoço. E nada de autorizarem a tirar a porcaria do equipamento e nem sequer o capacete...
Foi o pior dia da minha vida até àquele.
Senti-me o mais espezinhado dos cidadãos.
Estava desesperado.
Tão desesperado que quando, na formatura da noite, chamaram por mim e me disseram que estava dispensado da EPC e que seguia para o curso de Operações Especiais em Lamego, achei aquilo um alívio enorme...
.
Mal eu sabia o que me esperava naquele maldito quartel de Penude, a 4 km de Lamego, num inverno frio na Natureza e violento para mim...

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Boas recordações. Más recordações. Espírito positivo - é o que mais intressa

Escrevo hoje mais este artigo para que o blog não seja só feito de militarices antigas.
Valeu?
.Bom. Sem obsessões. Mas muitos de nós voltaram com traumas, como saberás. Cada um à sua maneira, «aquilo» não nos larga.
A uns afectará mais e a outros menos.
Por mim, há coisas muito giras que não quero esquecer. Mas confesso que, no primeiro Verão que passei na minha aldeia (em 1975), quando a rapaziada às 6 da matina (como sempre se fez) desatou a largar foguetes... saltei da cama e escondi-me debaixo dela.
E, como já expliquei aí em baixo, ainda hoje reajo com stress a algumas circunstâncias (ruídos metálicos, motores de heli, barulhos fortes e bruscos próximo de mim...).
.
Isto surgiu-me hoje quando li no Diário de Notícias um artigo interessantíssimo que fala da descoberta de dois cientistas americanos em matéria de apagamento de más recordações. Um dia, aqueles (confesso que eu não preciso, mas, infelizmente, há muita gente que precisa) que sofrem de stress pós-traumático poderão apagar essas más memórias.
Às tantas, lê-se lá o seguinte: «Espera-se que, no futuro, alguns medos e recordações traumáticas possam ser apagados / Apagar memórias de forma selectiva é agora possível. O sofrimento causado pela recordação da perda de alguém, um medo que não se consegue controlar, as lembranças de um conflito podem ser suprimidas, segundo um estudo realizado por uma equipa internacional.»
Podes ler aqui o artigo todo. E proponho-te outras leituras simples: aqui, podes ler umas coisas sobre estes problemas e aqui encontras a descrição de um caso concreto. Aqui, o que se passa nos Estados Unidos.
.
Eu procuro é lembrar-me de que conheci lá bons companheiros e que dei aulas na Escola Preparatória de Buco Zau quase dois anos e assim pude ajudar muitos daqueles miúdos a aprenderem Português e... outras coisas.
E isso, sim, são boas memórias.

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

GORILAS

Quando estavamos no Sangamongo velho, a dar protecção à Engenharia, para as terraplanagens necessarias para instalar as novas instalações do quartel, todas as noites a nossa cozinha, era visitada pelo menos por um gorila, o que deu azo, a que, se não estou em erro, a alguns tiros, que até furaram os nossos chuveiros "Armani", feitos de meio bidon de combustivel!
Foi dificil até que nos habituarmos àqueles ruidos estranhos e despropositados, durante a noite, e que nos arrasavam com os nervos.
Depois até se tornava engraçado, estar cá muito em cima, a ver, "um irmão", a comer os restos, pois começaram-se a deixar alguns, para eles!
Também me recordo de os ver a atravessar a picada, quando por lá tinhamos de circular.
E um dia apanhamos um "cagaço" daqueles a parecer bem: um "irmão" tinha subido a um tronco muito alto, e estava lá em cima a olhar muito compenetrado e, curiosidade, com uma quantia de erva debaixo do braço, pois não sabiamos, e tambem nunca soubemos, o que terá originado tal comportamento, ou seja, logo o nosso pensamento estava filado no inimigo!
Enfim, historietas, algo caricatas e passadas, que na altura pouca graça tiveram...

Maiombe, pessoas e gorilas

Já escrevi que o Maiombe é ou era um dos últimos locais onde os gorilas estavam bem na Natureza. E alguns de nós tivemos a felicidade de os ver em liberdade. Mas, com o desbaste de árvores ao ritmo de milhares por ano, esse paraíso tem vindo a ser posto em causa.
Um grande amigo meu e grande jornalista, Carlos Narciso de seu nome, que já foi um grande repórter da SIC e que hoje está na França a dirigir um canal de TV de língua portuguesa, escreveu há sete anos na malograda revista «Em foco», um belo artigo sobre gorilas. Melhor, sobre o mal que os homens fazem aos gorilas por pura ganância.
Transcrevi-o para um blog meu. Gostava que o lesses. Aqui.
Às tantas, diz ele: «Os nossos parentes mais chegados - De todos os grandes macacos, o gorila é o mais difícil de observar, porque vive em pequenos grupos familiares e porque há cada vez menos. O gorila está em vias de extinção, não há mais do que alguns milhares em liberdade. A extinção desta espécie deve-se ao abate das florestas e à caça. Além de serem poucos, os gorilas vivem normalmente em florestas densas, onde o homem tem grandes dificuldades em se deslocar. O gorila é tímido e pode passar a vida inteira escondido do olhar dos curiosos».
Como te lembrarás, naquele cenário digno dos tais filmes do National Geographic, havia gorilas à vista. Repara: há milhões e milhões de cidadãos que, mesmo tendo estado lá, nunca viram um gorila - o animal mais parecido connosco.
Por isso, considero-me feliz: eu vi.
E a minha paranóia, já cá, durante anos, era ir até ao Jardim Zoológico e ficar ali a olhar para o gorila que lá havia... e ele para mim, sem me ligar nenhuma.
Pancas, meu! O que é que se há-de fazer?

CONVITE FORMULADO, CONVITE ACEITE

Estou a responder presente, ao convite que me foi formulado para colaborar escrevendo algumas coisas neste blog que afinal é de todos nós, B. Caç. 4910.
Sou homem de poucas recordações e na "guerra" vivi sempre com o pensamento no dia de amanhã ou mais propriamente no dia do regresso.
O que guardei é praticamente zero, visto que vivi permanentemente com o pensamento virado para o futuro. O presente nada me dizia, considerando-o como um hiato na minha vida e como tal esse espaço da minha memória está praticamente vazio... digamos que a parte do "disco rígido" referente a esse período ficou quase em branco.
Apesar disso e dentro das minhas possibilidades e parcos conhecimentos, estou disponível para ajudar a manter vivo, este espaço que se pretende seja um elo de ligação entre todos nós que servimos no B. Caç 4910.
Bom seria que todos os nossos companheiros tivessem disposição e disponibilidade para aceder à internet e passar por aqui para deixarem os seus comentários e/ou sugestões, pois é isso que dá ânimo e mantém a motivação para continuar.
Agora que este blog "nasceu" e já ganhou alguma dimensão o caminho só pode ser um; EM FRENTE!
É nesse sentido que, com muito orgulho, passo a fazer parte desta equipa pretendendo dar o meu modesto e humilde contributo no sentido da prossecução do objectivo que é comum a todos nós; Cimentar os laços de amizade e mantermo-nos todos próximos nem que seja apenas sentimental e virtualmente.
Não me proponho colocar aqui muitos posts, mas tenho intenção de com alguma regularidade deixar uns escritos, talvez não muito das aventuras por lá vividas mas, eventualmente de outros temas que também possam ser interessantes.
Agradeço o convite que me foi formulado o qual implicitamente está aceite e louvo a ideia de se ter criado este blog como forma de comunicação.
Por aqui me fico por hoje!
Amílcar Pinela da Silva Romão
(ex) Soldado Condutor Auto 001319/72
1ª Companhia de Caçadores
B. Caç 4910

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

o bar "o fiote" no Chimbete

Alf. Duarte (por onde andará?) ladeado pelos fur's Almeida e Pereira junto ao Bar "o fiote" no Chimbete (3ª companhia).

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Madeira do Maiombe: muito apreciada e muito explorada naqueles anos

Lembram-se dos enormes camiões que transportavam grandes quantidades de troncos gigantescos de árvore? Sabem quantos hectares (cada ha = 10 000 m2) tem o Maiombe, aquela belíssima floresta virgem? Qualquer coisa como 175 mil.
E imaginam quantos metros cúbicos de madeira é que os madeireiros cortaram e venderam em 73? Foram 285 mil. A maioria em Buco Zau e no Belize, vejam lá... Um verdadeiro crime ecológico, meus amigos. E cometido ali à nossa vista.
Hoje, só para tua informação, não é autorizada extracção de madeira para lá dos 20 mil metros cúblicos por ano.
Comparem.
Para mais informação pormenorizada sobre esta matéria, deves ler este artigo aqui.
Dá para perceber que naqueles anos de 60 e 70 houve uma sangria da Natureza enchendo os bolsos de meia dúzia de pessoas.
Era assim o colonialismo, meus amigos: uma agressão feroz contra as pessoas mas também contra a Natureza: um verdadeiro «salve-se quem puder».
E eram de uma arrogância mítica. A mim nunca me aconteceu nada. Mas sei de quem se tenha visto aflito com eles na floresta. Ao ponto de criarem perigo para a tropa.
Não me admira pois que nas picadas alguns se tenham visto na necessidade de abrir caminho a tiro obrigando os camiões a encostar para que a tropa pudesse passar. Uma situação incómoda mas que, dadas as circunstâncias, temos de ver bem como era...
Dizia-se que os medeireiros nem queriam ouvir falar de escoltas da tropa nem nada disso: sozinhos é que andavam bem.
Quero dizer-te que na Sala de Operações e Informações do Batalhão (eu nessa matéria tinha de ser o adjunto do major Medina Ramos e tinha de saber as coisas, lamentavelmente...) esse problema era muitas vezes avaliado, como se diz na gíria de Operações Especiais.
Não sei se alguma vez algum madeireiro sofreu algum ataque.
Acho que não...

Recordando o 1º Encontro – 1984 Carregado

Foi no dia 30 de Setembro de 1984, na Quinta da Granja, Carregado, que se realizou o primeiro Encontro a nível de Batalhão, pelo menos, não há conhecimento de outro antes.
.
Estiveram presentes entre 50 a 60 pessoas (sendo cerca de 30 ex-militares).
.
O encontro foi organizado pelo nosso companheiro Ricardo Caldeira (Cabo Gasolinas) e como ainda não havia a organização que há hoje, ou seja, ninguém recebia a carta a dar conhecimento do evento, tive a sorte de ver o anúncio (que está ao lado) publicado num jornal desportivo.
.
Eis a única foto que tenho desse encontro.
Na 1ª fila da esquerda para a direita: ????, Cavalleri, ????, Gonçalves ex-fur 2ª, Sousa ex-fur 2ª, Correia ex-cap 3ª, Vírgilio ex-fur 2ª, Mineiro ex-sol 2ª, Tavares ex-fur 2ª, João Silva ex-fur 2ª, Peres ex-fur CCS, Duarte Ex-fur CCS e Martinho Ex-fur Pel Morteiros; na 2ª fila pela mesma ordem: Eusébio, Ricardo Caldeira Ex-Cabo CCS, Franco, Maia Ex-Alf CCS, Rebelo Ex-fur 1ª, Piçarra Ex-fur 1ª e será o ???Esperanço ??? Ex-fur CCS.; e na 3ª fila ainda pela mesma ordem: Afonso ex-fur 2ª, Nuno Miguel (Médico) e Manuel Santos ex-cabo CCS.

Sábado, 18 de Outubro de 2008

A língua que se fala em Cabinda tem vários dialectos

Neste mapa do séc. XVII/XVIII,
vê-se muito bem a palavra Dingi
Meus amigos! Lembram-se de nós dizermos que os nativos de Cabinda falavam fiote? Bom. Parece que estávamos errados. Lê aqui. Parece que fiote é o nome que se deve dar à cultura de todo aquele território que era o antigo reino do Congo. Parece que kikongo / kikongue era a denominação geral desse território. E parece que a lígua que os kikongues falavam tem diversas entoações e dialectos, inclusive no território que hoje é Cabinda propriamente dita, onde a língua e a cultura fiote tiveram como é natural adaptações diversas ao longo dos séculos.
Mas por que é que me veio esta à tola?
Por uma razão muito simples: é que a palavra fiote para alguns de nós significava tudo o que fosse local: um pano, uma comida, uma pessoas, a língua.
E porque eu acho que, mesmo com 35 anos de atraso, ainda vou a tempo de transmitir a alguns de vocês, que queiram ler isto, uma forma diferente de encarar aquela terrae aquelas pessoas.
Eles, os da terra, tinham hábitos delicadíssimos de que quase não dávamos conta, no meio da nossa guerra contra o medo de morrer. Comigo era assim. Mas imaginem qual não é a surpresa quando um dia chego a casa e me é contada a seguinte história:
.
(Como sabem, eu tinha casa lá em baixo,em Buco Zau: era numa ruela de acesso ao Rio Luáli, a última da fiada construída à chegada do Batalhão, e ficava a 50 metros da água.)
Pois bem: a senhora que fazia limpeza lá em casa, um belo dia apareceu com um ovinho na mão com todo o cuidado, ofereceu-o e disse:
- Min' senhor (queria dizer: Minha senhora), Mari Rose manda esta ovo pa mim senhor.
Maria Rosa (ou talvez mesmo Marie Rose, dada a influência do francês da República Democrática do Congo naquelas paragens) era a bébé de meses que transportava sempre no pano às costas.
Coisa mais encantadora - já viram? Era a maneira de a mãe agradecer o facto de trabalhar lá em casa e ganhar com isso uns angolares.
O ovo era uma coisa muito importante.
.
O Dr. Ferreira, no encontro das Caldas, contou outra com a mesma piada ou mais ainda. Ele assistiu lá ao primeiro parto da sua vida de médico: não havia tempo para irem até Cabinda e ele mesmo «fez» o parto ali, no Buco Zau. Passados uns tempos, viu os pais na rua, parou o Land Rover que era a ambulância e perguntou-lhes se estava tudo bem. Estava. Ia arrancar mas lembrou-se de perguntar o nome do miúdo. Resposta:
- Vicente Doutor (era assim mesmo o nome do miúdo: Vicente Doutor, em homenagem ao médico).
Depois foram também buscar um ovo e ofereceram-lho...
.
Por onde andarão hoje a Mari Rose e seus pais e o Vicente Doutor e seus pais? Hoje terão 36 ou 37 anos...

Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Mais um… é sempre Bem-vindo!

Muito sinceramente, quando criei este sítio, foi com a intenção de divulgar os nossos “Encontros Anuais” na tentativa de “pescar” alguns companheiros/camaradas, os mais distraídos, que desconhecem o nosso evento anual (sempre no 1º sábado de Outubro), daí a sua inércia.

Com a chegada de novos colaborares, o nosso blogue passou de uma apatia profunda em que estava mergulhado, para uma dinâmica espectacular.
E como queremos mais, a partir de hoje temos mais um colaborador, o Amílcar Romão, que muito gentilmente aceitou o nosso convite, para nos ajudar a manter o blogue bem “vivo” e cada vez mais forte na ligação entre toda a malta do batalhão.

Já somos 5 (cinco), e estamos receptivos a mais colaboradores, que queiram dar uma mãozinha, sem qualquer tipo de compromisso e dentro da disponibilidade de cada um.

Uma nota final - para intercalar com as excelentes e exuberantes histórias que nos estão a ser contadas diariamente, e sempre que possível, vou colocar um ou outro post, para recordar os Encontros Anuais já efectuados.

Evacuação terrestre

Quando cheguei a Landana, ainda tive de esperar pelos feridos, que vinham por estrada, e que já estavam a ser evacuados há mais de 9/10 horas.
Chegados, entrei na primeira ambulancia, e logo fui ao chão, por ter escorregado no liquido viscoso que estava nesse mesmo chão.
O cenário era, e é indiscritivel, dantesco mesmo.
Assim, resolvi, não mexer em nenhum dos feridos, dado que vinham controlados, e reiniciar a marcha, pois tambem já não estavamos assim tão longe do Hospital, ou seja, mais uma horita de sofrimento, que a juntar às outras anteriores dez, já dava um tempo demasiado longo!
Chegados ao hospital de imediato se procedeu à amputação dos dois feridos que ficaram sem as pernas, e tentar minimizar os estragos dos três cegos, atenuando-lhes, o sofrimento.
Fui ao Comando, tal como me havia sido anteriormente ordenado, e o Brigadeiro recebeu-me no seu quarto, tendo ficado inteirado de toda a situação.
De seguida fui à residencial, e o Luis teve de se levantar e abrir a cozinha e o restaurante, onde os "habilidosos da cozinha" deram azo à sua imaginação e prepararam uma refeição mais ou menos decente para o pessoal.
No final, disse ao Luis, para apresentar a conta no Comando de Sector, pois foram as ordens que o Brigadeiro me havia dado.
Cerca das seis horas da matina, lá estava eu, novamente, no quarto do Brigadeiro, que se encontrava sentado na beira da cama, sem que esta mostrasse sinais de ter sido utilizada, embora ele estivesse de pijama vestido!
Ficou inteirado de toda a situação, e de que a coluna já tinha partido de regresso ao Bata Sano, e que eu iria iniciar o meu regresso, mas não integrado na coluna, como gostava de fazer!
Fez-me aqueles avisos habituais, e que devia integrar a coluna do Dinge para cima, mas o que é certo é que cheguei ao Bata Sano, pouco antes das 8 horas da manhã, depois de lá ter saido 21 horas antes, o que no minimo já fazia 24 horas sem ir à cama, e sem um momento de descanso!
A coluna chegou muito mais tarde.
(Eu gostava imenso de circular sem coluna, porque tambem tinha a sorte, de haver sempre um mecanico, que gostasse de andar comigo, e faziamos diversos e variados percursos, sempre quatro pessoas na ambulancia: eu, um mecanico, um enfermeiro e um transmissoes, todos desarmados, apenas se levando uma pistola!).
Fui direito à casa de banho, que ficava entre os quartos, naquele edificio junto à capela, e enfiei-me, completamente vestido, debaixo do chuveiro, para tirar a maior parte do sangue, entranhado e já seco, da farda, pois esta estava castanha e nada tinha a ver com a sua cor normal.
Saido do banho, sou chamado para a formatura das 8 horas, ao que ripostei, em publico, com um pirete, mandando-os para o "c...lho"!
Vesti-me, e quando todos os sargentos pensaram que eu ia para a formatura, passei por tras desta, e dirigi-me para a messe para tomar o pequeno almoço.
Na varanda da messe dos oficiais, estava o Comandante Pedro Alvares Cabral a quem saudei, e continuei o meu percurso!
Veja-se a diferença entre dois comandantes: um, o Brigadeiro, nessa madrugada, recebeu-me, por duas vezes, no seu quarto, para se inteirar da situação; o outro, Comandante do Batalhão a que pertenciam os feridos, nem uma infima pergunta me fez sobre o assunto!
Tomado o pequeno almoço, com as velhas picardias entre os especialistas e os atiradores, por causa de eu não ir á formatura, e que dá sempre para responder que em 24 horas, ainda não tinha colocado os "c...ões" numa cama, enquanto a maior parte ainda trazia os olhos mal abertos de tanto dormir, às nove horas lá estava eu na enfermaria, para dar inicio a mais um dia normal de trabalho.
Pensava eu que assim seria, mas teve mais peripecias que ficam para a proxima, dado a extensão deste texto.

Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

Quase nem demos por ela. Mas estivemos no meio dos cenários de um filme do National Geographic

Costumam ver os filmes de animais do National Geographic? Aquilo é uma lenda de beleza e de Natureza com as suas leis calmas e tranquilas, mesmo perante anecessidade de matar para sobreviver...
Pois bem. Ao longo destes anos todos tenho dito muitas vezes que no Maiombe o cenário era o mesmo: digno de um filme daqueles.
E as cenas eram as mesmas.
Os elefantes que vinham ali a uns quilómetros de nós passar os seus últimos dias e se aproximavam do cemitério dos elefantes... no meio da floresta virgem...
(Sabes que Buco Zau, M'Buco N' Zau, significa Buraco do Elefante?)
Mas há muitas outras imagens que não me largam há 35 anos.
O gorila que atravessa à frente do jeep da tropa de mãos dadas com a companheira e mãe do filho e com o filho a reboque a olhar para os humanos sem grande interesse...
A águia que volteia por cima dos Unimogs da tropa com a cobra presa nas garras, enquanto a serpente tenta libertar-se e se enrosca às patas da águia...
A surucucu, de que já falei aí em baixo noutro artigo, que se passeia pela parada de forma bem tranquila e alheia ao perigo de alguém ripar da G3 e a matar... e com os cães em respeito a fixá-la de longe e sem se atreverem sequer a mexer e os cabritos a fugir dela a sete pés...
Ou o caso da gibóia que procura ratos ou lá o que é junto das baterias da tropa... e acaba morta a tiro...
Ou os macacos a brincar na floresta...
Ou as trovoadas tropicais loucas com a Natureza animal em silêncio total, mas com a violência dos elementos durante meia hora, a que se seguia a calma absoluta - já com as aves na floresta a retomar o chilreio a mil vozes...
Ou o cão e a cabra do Bata Sano que marchavam ao lado da tropa na parada com a mesma compenetração ou até mais do que os soldados...
.
Digam lá se isto tudo não é bem digno de um daqueles filmes do National Geographic, muitas vezes feito em locais bem menos marcantes da Natureza. Ali, a floresta era exuberante. Luxuriante, até.

Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

Malta! Isto é catarse pura! E é bom que seja...

Catarse
Catarse é o método que visa a eliminar perturbações psíquicas, excitações nervosas, tensões, angústia, através da provocação de uma explosão emocional ou de outras formas, e baseando-se na rememorização da cena e de factos passados que estejam ligados àquelas perturbações. Ajuda o indivíduo a obter controlo emocional e a enfrentar os problemas da vida.
In Doenças e Sintomas (clicar para ler mais) letra - C - 27/01/2004 -

Uma manhã de domingo no Buco Zau

Lembram-se do Caldeira, alferes da 1ª, quando vocês (1ª) estiveram no Bata Sano? Há muitas histórias dele que me acompanham desde essa altura. A maior parte metem o bom feitio dele, o muito whisky em que afogava os seus poemas de desespero bem-disposto na minha varanda em Buco Zau, e a mistura do inglês com o português altas horas da noite...
Mas há uma coisa que ele fez numa manhã de domingo que tenho muita pena de não ter sido eu a fazer (é que não dei mesmo conta do que se estava a passar). Se calhar já nem ele se lembra.

.Quem me dera rever o Caldeira... Descubram-no lá para mim.

A situação foi muito simples. Era uma manhã de domingo. O Caldeira estava no bar cá em baixo, em Buco Zau. Constou-lhe que havia sururu junto a um camião que, como sempre, recolhia o cacau que as pessoas de lá estavam a vender... quer dizer quase a dar de borla a um camionista que os enganava a dois carrinhos: roubava no peso e roubava no preço. (Na foto meti um camião parecido com os daquele tempo - se bem me lembro...).
O que é que o bom do Caldeira fez?
Mandou descarregar o camião todo e voltar a pesar tudo.
Imaginam a cara do camionista?
.. Parce que foi fazer queixa do Caldeira e tudo.
Mas que castigo é que alguém nos podia dar? Mandar-nos para a guerra?
Já lá estávamos.
Esse era o nosso desespero.
Mas era também o desespero dos comandos daquela coisa: depois daquilo, nós já não tínhamos medo de nada.
Ainda hoje me rio desse desânimo deles por não poderem castigar-nos mais...
EhEhEhEh!!!!!