terça-feira, 7 de outubro de 2008

Cabinda, café, cacau e petróleo


Prometi que escrevia umas coisas neste blog.
E assim farei.
Comecei com o artigo que aparece já a seguir, aí em baixo (nos blogs lê-se ao contrário do que se escreve, atenção a isso: eu escrevi primeiro, vocês encontram depois...).
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E vou continuar.
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... Mas quero desde já avisar: mesmo que não tenha visto fisicamente cada um de vocês nestes 34 anos, vocês têm estado sempre comigo.
Não sei que raio de fenómeno é este, mas quando cheguei no sábado às Caldas e vi cada um dos que lá estavam... é como se tivéssemos agora mesmo estado ali em baixo, no Buco Zau, a beber uma Cuca (era isto, não era?) no bar mais mixuruca e mais recordado da minha vida...
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Agora mais umas notas de recordação sobre Cabinda.
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Vocês sabem que havia próximo de Buco Zau na árvore do cacau uma cobra tão mortal que se te mordesse morrias de imediato? Ela disfarça-se nos ramos (é igualzinha a um ramo) e pica-te na cabeça. Pronto, já eras. Terrível, não é?
O café era e é outra grande riqueza de Cabinda, a par do petróleo, claro.
A propósito de petróleo: vocês tiveram consciência, lá, de que um dos objectivos da tropa portuguesa era defender os poços de petróleo da Cabinda Gulf Oil Company, uma empresa americana que mantinha os poços fechados à espera de melhores dias na cena político-económica mundial? Não esqueças uma coisa: em 1973 houve no mundo uma crise maior do que esta de que se fala hoje. Porque foi também na economia real e não apenas na banca e na finança, como a de hoje. (Vamos lá ver se não assalta a economia: então é que vai ser o fim da picada...).
A propósito de cobras: nunca ouviste dizer lá que havia nas palmeiras uma cobra tão mortal e cuja picada era tão dolorosa que os nativos, quando subiam lá acima para recolher o dendém, se por acaso vissem uma, atiravam-se de imediato lá do alto e preferiam morrer da queda ou ficar estropiados para sempre a serem mordidos? Parece que havia bastantes estropiados por esta razão. Constava que se morria em 10 minutos. Mas que eram 10 minutos de dores até ao limite de sofrimento do organismo... A menos que houvesse logo ali à mão um enfermeiro com soro anti-ofídico - um luxo de que só ouviram falar no contacto com os batalhões da tropa portuguesa, naturalmente...
E há outra história que posso recordar: um dia numa operação, de noite, numa tenda, um soldado do grupo do Quinhones terá sido «abraçado» por uma gibóia, que alguém, talvez o próprio Quinhones, terá cortado à faca para libertar a vítima, que só arfava e gemia... Alguém da 1ª ouviu falar disto ou é mito? Um dia no edifício das Transmissões matámos uma de 3 metros a tiro. Isso é verdade. E em dias de trovoada tropical, isso é verdade, as surucucu (elas parecem paus, sem cabeça nem rabo, não se sabendo onde é a frente e onde a rectaguarda) atravessavam a parada quando a chuva terminava. Pareciam rainhas da floresta a deslocar-se lentamente, altivas e a paralisar os cães do quartel, que ficavam de longe a observá-las, como nós...
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Histórias sem fim, é o que é... Anos de ouro da nossa juventude hoje já perdida, é o que é...

8 comentários:

Curto disse...

Essas historias das cobras sao verdadeiras, com excepção da surucucu que nunca ouvi falar. existiam essas do cafe, que erão esverdeadas e muio fininhas. as das palmeiras acho que nunca as vi. é verdade essa jiboia na casa das transmissoes pegada à messe dos sargentos e a quartos de alguns furrieis. Tambem se matou uma, com uma retroescavadoura atras do refeitorio das praças, naquele capim e que se veio a pendurar na baliza de baixo do campo de futebol. De-se por ela, porque tinha desaparecido um gatito que andava por lá, e depois a maquina a tentar limpar aquele capim ali á beira, sentiu uma enorme resistencia e e
segundo o manobrador seria a jiboa quando estava a defender-se da entaladela. Tirou-se fotos, abriu-se a bicha e lá estava o gatito.

Curto disse...

Quanto à historia do Quinhonhes, nunca tive conhecimento, mas aconteceu-me uma situação que me transtornou e tirou o sono durante muito tempo, e quando me lembro ainda mexe comigo. Quando o Alferes Caldeira caiu naquele cmpo de minas a caminho do Belize, para evacuar os dois feridos sem pernas e tres cegos, deixaram muito material para tras. Na semana seguinte teve que se la voltar para recuperar o mais possivel. Foi uma operação em grande, com muito mais pessoal do que habitual, incluindo TEs. O ambiente era imensamente carregado e andamos quase sempre fora do trilho, com uma brutal cautela dos TEs. Não sei se sabes eu era muito estimado e respeitado por eles, pois muitas vezes fui ao quartel deles, na ambulancia, apenas, com mais um transmisões, um mecanico e outro enfermeiro, desarmados, excepto eu que levava apenas uma pistola, ajuda-los no que fosse preciso, e eles sempre a chamarem-me para vir para tras e chamar o capitao Costa. Ao subirmos um morro, um soldado da frente enfiou aquele ferro de picar no gatilho da arma e disparou. De imediato ouviu-se um ruido ensurdecedor, tipo tremor de terra. Era uma manada de elfantes, em debandada, assustados, sabe-se lá com que. Resolveu-se então acampar ali. Chovia que deu a dava e já estava a começar a anoitecer. Naquela situação de colocar os panos de tenda para nos defendermos da chuva, há um grito aflitivo e indiscritivel. O que foi, o que deixou de ser, e alguem chama-me que havia um ferido, mordido por cobra. Não me merece a pena, e nem conseguiria descrever o resto, mas facilmente se calculara, e vejo um soldado muito aflito: ele viu uma cobra e ela eu-lhe uma raquetada, acertando-lhe com o rabo na cara, deixando-a vincada, mas de cobra nem sinal. Isto presenciei eu, agora não estou a ver o Quinhonhes a cortar uma jiboia viva à facada! Mas tudo é possivel, mas nunca ouvi falar nisso! Como ves há imensa historias, mas tremos tempo de as descrever e até pode ser que o Manoel de Oliveira venha a fazer um filme. Um abraço

João Silva disse...

Será que o Quinhones tinha coragem para cortar as goelas a uma jibóia? Hehehe… Como diz o Curto, também não o estou a ver fazer uma coisa dessas.
Também nunca ouvi nada sobre essa história.
Tenho uma foto com bicho desses… um dia meto aqui no blogue.

João Silva disse...

Para ti Curto -
Tens aqui uma história que dava perfeitamente para fazer um post, e certamente tens mais, que ficam muito melhor em posts do que em comentários.

Ora, há mais de um ano falei contigo e também com o Almeida (que fez questão em colaborar), para ambos e juntamente comigo participarem no blogue. Praticamente tudo ficou como estava, o Almeida ainda mandou umas fotos e uns vídeos para eu colocar, mas tu disseste que não tinhas fotos, mas afinal tens uns contos interessantes para postar.

Ao Mendes fiz-lhe o convite e aqui está ele a participar e a tirar o site, como tu dizes, do estado de moribundo.
Tu e o Almeida também podem muito bem colaborar, bem como qualquer companheiro que faça parte do nosso Batalhão.

Aqui fico mais uma vez o convite!

Curto disse...

João
Acabei de dar resposta ao teu e-mail e expliquei-te a razões pelas quais nunca me dispus a isso. Não teria motivação para estas coisas, mas parece que o bichinho está a nascer e é com imenso agrado que aceito o convite e passarei a colaborar com a tua ajuda e teus conselhos.Um abraço

José Carlos Mendes disse...

Força, malta.
Eu por mim alimento quatro blogs sobnre Lisboa e ainda colaboro em mais dois. Mas... como sou profissional da escrita, isto para mim é um prazer...

Um gd abraço.

NOTA
FOTOS, NÃO TENHO. VOCÊS AJUDAM NESSA MATÉRIA?

Uma opinião: desde que fiquei com a tarefa de organizar o almoço de 2009, não me sai da cabeça um asessão de fados em que os fadistas fossem à borla (vocês têm de falar com aquele tipo que canta ele e um filho) e nós só tivéssemos de pagar aos guitarristas. Eu apresento o espectáculo.
Acham um aideia parva? Vocês é que conhecem a malta. Temos tempo de falar sobre várias ideias.
Vou ver se uma empresa patrocina estas coisas para ficarem à borla para nós...

Curto disse...

Mendes, se for aqui na zona, tentarei com que a uma parte dos fadistas aqui da zona, colaborem pelo comes e bebes, essencialmente, os bebes, mas os guitarristas terão de ser pagos.

Amílcar Romão disse...

Acho a sessão de fados muito mais interessante que "aquela música" que normalmente ninguém ouve. No entanto parece-me complicado pôr toda aquela gente em silêncio para se poder escutar os artistas como deve ser numa sessão de fados. Bem pesquisado, talvez até haja alguém do nosso batalhão que também dê um jeitinho.