sábado, 18 de outubro de 2008

A língua que se fala em Cabinda tem vários dialectos

Neste mapa do séc. XVII/XVIII,
vê-se muito bem a palavra Dingi
Meus amigos! Lembram-se de nós dizermos que os nativos de Cabinda falavam fiote? Bom. Parece que estávamos errados. Lê aqui. Parece que fiote é o nome que se deve dar à cultura de todo aquele território que era o antigo reino do Congo. Parece que kikongo / kikongue era a denominação geral desse território. E parece que a lígua que os kikongues falavam tem diversas entoações e dialectos, inclusive no território que hoje é Cabinda propriamente dita, onde a língua e a cultura fiote tiveram como é natural adaptações diversas ao longo dos séculos.
Mas por que é que me veio esta à tola?
Por uma razão muito simples: é que a palavra fiote para alguns de nós significava tudo o que fosse local: um pano, uma comida, uma pessoas, a língua.
E porque eu acho que, mesmo com 35 anos de atraso, ainda vou a tempo de transmitir a alguns de vocês, que queiram ler isto, uma forma diferente de encarar aquela terrae aquelas pessoas.
Eles, os da terra, tinham hábitos delicadíssimos de que quase não dávamos conta, no meio da nossa guerra contra o medo de morrer. Comigo era assim. Mas imaginem qual não é a surpresa quando um dia chego a casa e me é contada a seguinte história:
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(Como sabem, eu tinha casa lá em baixo,em Buco Zau: era numa ruela de acesso ao Rio Luáli, a última da fiada construída à chegada do Batalhão, e ficava a 50 metros da água.)
Pois bem: a senhora que fazia limpeza lá em casa, um belo dia apareceu com um ovinho na mão com todo o cuidado, ofereceu-o e disse:
- Min' senhor (queria dizer: Minha senhora), Mari Rose manda esta ovo pa mim senhor.
Maria Rosa (ou talvez mesmo Marie Rose, dada a influência do francês da República Democrática do Congo naquelas paragens) era a bébé de meses que transportava sempre no pano às costas.
Coisa mais encantadora - já viram? Era a maneira de a mãe agradecer o facto de trabalhar lá em casa e ganhar com isso uns angolares.
O ovo era uma coisa muito importante.
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O Dr. Ferreira, no encontro das Caldas, contou outra com a mesma piada ou mais ainda. Ele assistiu lá ao primeiro parto da sua vida de médico: não havia tempo para irem até Cabinda e ele mesmo «fez» o parto ali, no Buco Zau. Passados uns tempos, viu os pais na rua, parou o Land Rover que era a ambulância e perguntou-lhes se estava tudo bem. Estava. Ia arrancar mas lembrou-se de perguntar o nome do miúdo. Resposta:
- Vicente Doutor (era assim mesmo o nome do miúdo: Vicente Doutor, em homenagem ao médico).
Depois foram também buscar um ovo e ofereceram-lho...
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Por onde andarão hoje a Mari Rose e seus pais e o Vicente Doutor e seus pais? Hoje terão 36 ou 37 anos...

5 comentários:

A. Almeida disse...

DINGE, MALEMBO, CACONGO(LÂNDANA), São outras das localidades referidas no mapa.
Quanto ao "fiote" era usado tal como dizes,para defenir tudo o que fosse local, mas por vezes com dois sentidos; o depreciativo outras vezes como termo carinhoso.

Curto disse...

Obrigado meu caro Zé Carlos pelo teu conhecimento e sabedoria, bem como o engenho e a arte, com que nos vais brindando, e acima de tudo, encantando, aqui neste nosso cantinho!
Um grande abraço

SIR_PAGANINY disse...

Amigos: - Nunca me passou pela cabeça, algun dia ter saudades da tropa, de Buco Zau, enfim: De tudo isso. Mas, é verdade tenho saudades, Talvez tenha saudades da juventude. Não sei! Até breve, dia 3 de Outubro de 2009. Este vosso amigo Rui Costa da ccs aquele que tocava viola para a malta. Abraço.

fmoreira disse...

Boa noite,
Como diz A.Almeida, o termo "fiote" designava tudo o que fosse gentilico, quer fosse o caminho "fiote" ou o frango "fiote". Hoje em dia os próprios cabindas evoluiram o linguarejar e rejeitam o fiote em abono do "Ibinda". Dizem algumas correntes que o fiote designaria tudo o que é negro, de forma ofensiva, daí ser considerado um termo pejorativo.
Creio que assim não era. Acho que todos trocaríamos uma galinha de aviário por uma fiote. Quanto ao Kikongo era o grupo linguistico pois a origem dos cabindas (ou ibindas) é a familia Banto, subdividida depois em vários grupos ou clâs: Sundis, Vilis, Iombes etc.

Anónimo disse...

Camaradas, no Facebook existe uma página com o nome: Cabindas ao qual me orgulho de pertencer, devido à minha estadia de um ano nesse local mágico e místico chamado Bata-Sano. E a verdade, é que os brancos e pretos desse grupo têm a maior das honras em serem chamados de Cabindas ou Fiotes. A palavra "Fiote" só é depreciativa dependendo da pessoa que a usa e como usa.
Um grande abraço a todos!