terça-feira, 14 de outubro de 2008

Ruídos metálicos muito fracos incomodam-me com'ò caraças

Há coisas que ficaram. Vieram para ficar. Uma delas, comesinha, pequenina, sem importância nenhuma para quem não esteve nos sítios em que eu estive, é insignificante para todas as pessoas que me rodeiam mas tem uma importância doentia para mim: é o ruído não muito forte de metal contra metal. Seja o que for, mas se for aço contra aço, então a coisa assume proporções íntimas (dentro de mim). Tão íntimas que só falo delas se estiver em família. E agora aqui, claro.
Se for um ruído forte não me incomoda nada. Mas se for fraco e disfarçado... ôi, ôi...!
Sei qual é a origem disto: o maldito treino de Operações Especiais em Lamego.
Estão a ver?
Lamego, sempre Lamego.
É que o treino a que me submeteram em Lamego foi muito duro. Chamavam-lhe Dureza 11: mais duro que o diamante, portanto, que tem o nível 10 em dureza... Ora este treino, de tão forte, acabou por ser ainda pior do que a própria guerra concreta que sofri / sofremos em Cabinda naqueles anos perdidos da nossa juventude.
Em Lamego, sobretudo de noite, mas também na instrução na mata durante o dia..., era frequente aquela horrível cena de entrar um oficial louco na caserna (tu estás a dormir ferrado porque andas cansado de morrer). O tipo descavilha uma granada - ao princípio, nas primeiras duas semanas, não ouves. Mas, depois, ai não que não ouves: ouves tudo e fica-te gravado para sempre lá atrás no cérebro profundo... - descavilha a granada e grita:
- Sai granada!
E tu e aquela tropa toda salta tudo das camas.
A cena acontecia também na instrução na mata durante o dia... e vai de se escapulir pelo primeiro buraco. São seis segundos para estar atrás de um obstáculo.
Isto na caserna era terrível, mesmo com granadas de instrução, primeiro e granadas ofensivas depois de algumas semanas.
Mas na mata de dia tinha maior perigo: era feito com granada defensiva.

Ainda hoje estou para saber como é que não morreu ninguém naquela loucura de Lamego no Outono de 1972.

3 comentários:

Curto disse...

Pois é Zé Carlos, só quem passa por elas é que as sente! Fala-se muito, mas diz-se pouco, mas no meio disto tudo, eu admiro-me como é que a maioria do pessoal não está completamente passado! Ou então não sabemos e não damos por isso...
Um abraço

José Carlos Mendes disse...

Sabes, Curto? Eu tenho a consciência plena de que estou passado desde essa altura. Aliás, se não estivesse passado, como é que eu tinha aturado a malta que me rodeia há mais de 30 anos e que se farta de fazer asneira?
... E, no entanto, eu aturo-os sempre com o mesmo sorriso de maluco a quem nada pode afectar: o que me podia afectar já afectou naquela altura.
Dali para a frente, zero!!!!!!!

Curto disse...

Talvez seja o facto de nos terem modificado, que fez com passassemos a ter uma outra visão e uma outra capacidade de encaixe, que antes não era possivel...