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sexta-feira, 15 de março de 2013

Sebastião

...a caminho do altar

cozinheiro
Segundo o jornal da caserna, Sebastião teria sido desviado dum hotel de Cabinda, cidade, para a messe do Pangamongo por um dos comandantes deste quartel. Ainda fazendo fé no dito jornal, a transferência foi relativamente fácil, dado que Sebastião era um cozinheiro livre, e o vencimento pago pelo exército mais a quotização mensal de oficiais e sargentos, excederia largamente o ordenado pago pelo anterior patrão.
Sebastião, tal como todos os nativos, civilmente tinha um ordenado inferior aos brancos, mesmo executando as mesmas tarefas.

poligamia
Na tradição Kikongo, é permitida a poligamia. O homem pode ter mais do que uma esposa, mas todas têm os mesmos direitos da primeira-dama. O estatuto na sociedade é condicente com o número de esposas.
O Sebastião tinha duas mulheres.
- Mulheres mesmo,jura... - dizia ele. Certamente já entenderam onde este queria chegar.

abono de família
Todos os contratados civis tinham direito a abono de família. No entanto a maioria nunca o terá recebido, por desinteresse da parte contratante ou desconhecimento da lei de ambas as partes.
O Sebastião foi um dos privilegiados no recebimento de tal complemento, graças à competência e honestidade dos responsáveis da companhia, nestas matérias.

O abono de família era pago aos contratados, desde que os filhos fossem fruto de um casamento segundo as normas do regime vigente, o que não era o caso.
Então havia que arranjar uma forma de contornar a situação. Foi proposto ao Sebastião o casamento com uma das mulheres, civilmente ou pela igreja, de preferência com a primeira dama, porque tinha sido a primeira e porque tinha mais filhos, o que tornava o bolo maior. Depois era só dividir os Angolares pelas duas mulheres, proporcionalmente aos filhos de cada uma. Não podiam ir as duas mulheres ao altar? Pelo menos os filhos de ambas tinham os mesmos direitos e proventos. A sugestão foi aceite. O SSebastião decidiu que o casamento seria pela igreja, não sei se por convicção se por facilitismo. Casar pela igreja, burocraticamente tudo estava facilitado.

Quando ficou assente que o nosso cozinheiro ia casar de papel, criou-se um movimento espontâneo entre os graduados e as esposas presentes, no sentido de fazer a boda, que o Sebastião merecia.
Apesar do envolvimento de todo o pessoal, o destaque vai claramente para as Senhoras.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Acidente na ponte do Seva (II)

Mergulho para a morte

 Alertados para o acidente, efectivos da 3ªCCaç-4910/72, imediatamente se dirigiram para o local e apesar de não possuírem quaisquer meios de socorro, um grupo mais resoluto resolveu mergulhar em apneia, por debaixo da berliet na tentativa de recuperar algum corpo que tivesse ficado sob a viatura, no seu mergulho para a morte. Sobreviventes, apenas o condutor. Nunca mais vou esquecer aquele pequeno grupo de bravos e loucos madeirenses, que num Luali castanho e com grande caudal, estávamos na época das chuvas, e numa zona propícia aos “alfaiates”, tiveram tal ousadia. Solicitados os meios para a busca dos corpos, foi-nos cedida uma banheira e quatro remos.

Será que não tínhamos pessoal da marinha e equipamento, para percorrer este trecho do Luali entre a ponte do Seva e a confluência com o Chiloango, para efectuar o resgate dos corpos? Há a registar que do local do acidente até à foz do Chiloango, o percurso é perfeitamente navegável, mesmo por barcos de assinalável calado. Falta de meios ou desprezo pela vida dos peões desta guerra? 
 
Perdidas as esperanças de encontrar corpos sob a viatura, esta foi rebocada para a margem
 Viatura recuperada. Ficava a faltar o mais importante, a recuperação dos corpos...